17.10.10

Visões Que Tive Quando Pisquei Depois De Te Ver

Quando passaste do meu lado,
Peguei meu elefante alado
E cavalguei pelas estrelas
Mais frias do oceano.

Quando afogado no oceano vermelho,
Talvez morto, louco fiquei.
E no sonho da loucura,

Andava nas linhas das partituras,
Caía num copo de leite,
Pegava o barquinho de papel, voava até
A torre, beijava-te no vazio.
04/10/2001

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23.9.10

O Menino Vestido de Soldado

Há um tijolo não posto;
Há desejos ardentes recatados;
Há sentimentos represados;
Só a guerra está livre.

O Menino vestido de soldado.

A luz do sol ilumina o mundo,
Mas não podemos vê-la.
Queria frequentá-la, ficar ao lado dela,
Mas as pessoas não saem da frente de suas calçadas.

O Menino vestido de soldado.

Os ataques terroristas tornaram-se frequentes;
A violência vive à esquina;
As mulheres e os homens só pintam auto-retratos,
Mas alguns ainda têm esperança.

O Menino vestido de soldado.

Há crise de hemorragia verbal.
Os espaços foram ocupados por cartazes
Virtualmente há espaço para todos.
Mas os ouvidos não cresceram.

O Menino vestido de soldado.

Eles querem gritar, mas como soldados
Perderam as cordas vocais nas guerras.
Não tem papel, não tem cartaz,
Não se protesta contra o carinho do carrasco.

O Menino vestido de soldado.

Muitas bombas caíram.
As crianças ficaram surdas.
Ótimo! Os soldados estão mudos!
No mundo, não há diálogo.

O Menino vestido de soldado.

Pelo balancim, vejo uma mulher.
A água manchando os seios
A procura de sexo. Fui mutilado
Na guerra. Mas ainda vejo.

O Menino vestido de soldado.

A cidade está fechada. Os homens
Estão aquartelados. Seria
Um bombardeio? A esquadrilha?
Não! Tenho certeza, algo nasceu!

O Menino vestido de soldado.

Os desejos são mediatos.
Não se tem mais ânimo para o último tijolo.
O indivíduo é que vale.
Mesmo assim, sei, algo nasceu.

O Menino vestido de soldado.

O marchar dos soldados
Abafa os gritos. Mesmo as pessoas gritando
“Umbigo maior que o mundo”
Acredito (iludo-me?), algo nasceu.

O Menino vestido de soldado.

Do lodaçal, da eterna guerra,
Das relações líquidas, entre amores cegos,
Relacionamentos surdos, uma justiça muda,
Ouso dizer: algo nasceu!

O Menino vestido de soldado.

Alguns dirão: “Impossível!”
O que pode sair de uma
Salgada terra de sombras?
“Uma flor?!”

O Menino vestido de soldado.

Não são todos os dias
Que temos a sensibilidade para ler jornais.
A corrupção, o sangue, os fluidos corporais,
As atitudes artísticas, a queda da bolsa, os protestos,

O Menino vestido de soldado,

Os protestos e os objetos dos protestos.
A globalização, as barrigas vazias,
As crônicas de Amor,
Tergiversaremos tudo. Até sobre

O Menino vestido de soldado.

Do pelotão de fuzilamento,
O mundo baixa suas calças
E balança seu pênis, vindo nos currar.
E apenas lamentamos.

O Menino vestido de soldado

Está no pelotão. A infância corre
Entre seu fuzil e o muro:
Suas pipas, seus jogos, seu Navio Pirata
Aportando na ilha das sereias dos seios fartos.

O Menino vestido de soldado.

Não sabemos como terminar
O trabalho. Não porque temos a limitação
Dos quebra-cabeças, mas porque os tijolos
Não tem arestas e o ar é limite.

O Menino vestido de soldado

Não conhece o poeta.
O mundo não conhece o poeta.
O paredão não sabe do poeta.
A flor nasceu sem saber do poeta.

O Menino vestido de soldado.

Aguardemos! Amanhã o prédio terá
Mais um pavimento.
_____________________
Quero ser lírico!

O Menino vestido de soldado!

Corpos esquartejados, metralhados.
Rimas desgastadas, retalhadas.
Uma agulha para costurar
As cordas vocais do poeta.

O Menino vestido de soldado.

Não estava fardado.
Estava vestido. Entoava
Um hino de guerra de “som e fúria”,
Com sua voz tati-bi-tati.

O Menino vestido de soldado

Deseja Belém;
Lembra-se do Iraque;
Inventa Rio de Janeiros.
Em São Paulo, longe do Eldorado,

O Menino vestido de soldado

Assiste a um Teatro de ódio.
Um mundo a duzentos quilômetros por segundo
E as pessoas só se dão as mãos
Quando se saturam o peso do andar.

O Menino vestido de soldado.

Falarei de sexo e de cidades.
Versificarei o amor, insônia, solidão.
Bardo de coisas não vividas e indignidades. Gritei
Ideias que queriam antes explicar e não mudar o mundo.

O Menino vestido de soldado.

Mas não escrevi muitas dores,
Ou sobre lugares queridos, entes queridos.
Falta falar da angustia do amor e sexo.
E da relativização das minhas ideias.

O Menino vestido de soldado

Impõe a mira nas fuças dos desertores.
O paredão está disputado. Mas a flor
Enfrenta os tijolos; fura o paredão.
Agride o mundo e a guerra e se entrega a

O Menino vestido de soldado,

Que joga a arma, deserta, desposa
A prisioneira. E a flor?
Talvez uma esperança, o Salvador, a liberdade.
Amor? Ou não mais que um poeta?

O Menino se despiu!

Iniciado em: 19/09/2007
Transcrito em: 17/04/2010.

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28.8.10

"Mais Um Tijolo", pelos meus dez anos...

Meu amigos,

dia 30 próximo, completo 10 anos que escrevo poemas. A precisão é por conta do hábito de datar meus textos. Meu primeiro poema foi “Mais Um Tijolo”. Hoje, ele me parece pueril e ingênuo. Mas, tenho-o com grande carinho. Segue abaixo:

"Mais Um Tijolo"

Agora começo a construir minha casa.
A casa dos sonhos, desejos e esperanças.

Eu estou agora pegando o primeiro tijolo.
Eu estou colocando o primeiro tijolo.
Eu terminei de colocar o primeiro tijolo.

Estou pegando o segundo tijolo.
Meu braço dói.
Mas estou pegando, pegando o segundo tijolo.
Estou colocando o segundo tijolo.
Eu acabo de colocar o segundo tijolo.

Estou tentando pegar o terceiro tijolo.
Meu braço dói muito mais.
Eu não consigo pegar o terceiro tijolo.

Não vou pegar mais um tijolo.
Eu não vou colocar mais um tijolo.
Eu não vou colocar mais nenhum tijolo.
Eu não vou colocar mais nenhum tijolo!
30/08/2000

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23.9.09

Cavaleiro do Ar

Você é um rapaz de sonhos
Que quer ser chamado de gentleman
E dispensa uma legião de fãs,
E se dispersa em versos enfadonhos.

Você é um Cavaleiro do Ar,
Que viajará eternamente
Enquanto o vento soprar.

Você quer fazer muitas coisas:
Sair distribuindo sorrisos pelos rostos,
Mas fica triste porque cai.
Não se preocupe, suas mãos são de homem.

Você é um Cavaleiro do Ar,
Que viajará eternamente
Enquanto o vento soprar.

Me perguntas como fazer Castelos de Areia
Que pelas águas não sejam desfeitos.
Ora, amigo, não sei nem tecer uma teia
De aranha.

Mas se soubesse como você cavalgar
Voaria para a lua tentar entender
Como podemos ver as luzes das estrelas
Se são coisas que não estão mais lá?

Você é um Cavaleiro do Ar,
Que viajará eternamente
Enquanto o vento soprar.

Gostaria de saber por que não és um Don Quixote?
De saber por que tantos riem enquanto outros choram?
Por que estás em uma cidade de poucos jardins?
E para alguns não importam os meios, mas os fins?

Revira suas coisas e se pergunta:
“Onde estarão meus super-heróis?”

Talvez um tenha virado político e outro mágico.
Talvez um tenha virado santo, outro corretor.
E aquele mendigo, um dia pode ter sido.

Alguns podem ter virado motoristas ou operários,
Outros juízes ou salafrários

Você é um Cavaleiro do Ar,
Que viajará eternamente
Enquanto o vento soprar.

Olho para você como uma Duna permanente.
E queria aprender a sonhar um pouco mais,
A desprender os pés sem medo de cair.

Olho para você querendo aprender a unir
O fim e o começo.
Aprender a conciliar
O deletério e o deleite.
E a pensar sempre
No horror e no humor.

Você, meu amigo, é um Cavaleiro do Ar,
Que viajará eternamente
Enquanto o vento soprar.

Você é um gigante
Em uma terra de pequenos,
Sem montanhas para se
Encostar.

Você não se sente humano
Entre esses caras.
Você não se sente em casa
Nessas terras frias
E nem ao norte do Equador.

Não sei te dizer.
Só posso imaginar
Você como um Cavaleiro do Ar,
Viajando eternamente
Enquanto o vento soprar.
13/04/2009

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17.6.07

Amante Noturna

Se eu encontrasse uma noite
Linda,
Dormiria,
Torcendo para logo amanhecer
Para não trair minha
Morena.
18/04/07

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4.5.07

Um Poeta Marciano

Mundo,
Terra,
Vejo aqui, tudo errado!
Terra, águas poluídas,
Filtro quebrado.

Vejo tudo errado!
Será que sou de Marte?
21/08/2001

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14.3.07

Dois Poemas Pelo Dia da Poesia

Caros leitores, posto abaixo dois poemas, como forma de comemorar o Dia da Poesia. Eles foram escritos em momentos distintos da minha vida. Um em 2002, outro hoje!

Relação Poema Poesia

O poema, embora não necessariamente,
É uma estrutura fria,
Anti-sentimental e seca.
A poesia é notoriamente conhecida
Como emocional, idílica,
Dramática e vibrante.

Mas essas classificações
Não são jamais estáticas,
Nem propriamente verdades
Absolutas.

O poema é o lócus
Da poesia. Esta é a inquilina
Que incita a organização da casa.
Mas a organização das coisas
É feita com diálogo:
A poesia trás como decorador a emoção;
O poema a razão.
As duas senhoras dialogam,
Discutem o espaço, a idéia,
A posição dos moveis.
Nesta querela, o vencedor
Nunca é pleno:
Sempre cede em algo.
13/03/2002


****

Olhando Formações Gasosas

Estava parado.
Olhava o copo de coca-cola.
Formações gasosas na superfície.
Eu não desejava nada;
Não queria nada
Imaginava nada.
Não pensava nem
Em um ataque terrorista,
Nem nestes versos.

Então, desestabilizaram-me:
“O que houve? O que tas pensando?”

Não queria, mas fiz!
14/03/2007

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27.1.07

Body System

As pernas,
As pernas,
As pernas,
As pernas não são
Pernas
São meios de locomoção,
E as mãos
Instrumentos de pegação.

E eu pego o quê?

Pego sífilis, hemorragia, hebola, AIDS,
Amores para o coração
– Este músculo melodramático –
E palavras.

E o que é palavras?
Palavras
É palavra com s.

Palavras são gestos da língua
Língua
Este aglomerado de papilas gustativas,
Ponte entre meu corpo e o mundo,
Por onde transita minha alma.

Alma que sai
Deixando a fabrica
De sonhos e pesadelos
Funcionando;
Impulsos elétricos de células neurais.

Alma que volta
E abra as janelas
Do corpo
Olhos,
Dois pontos de vista.

E se a alma se fosse de vez?

Seriamos como os trituradores estomacais,
Autotriturando-se.
Carne podre.

Quem resume tudo é o intestino.
Coroemos o ânus
Rei do organismo.
17/07/2004

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19.1.07

O que irão deixar?


João vai deixar o tabuleiro de xadrez.
O Fulano vai deixar a música.
Carlos vai deixar o chá.
O Beltrano vai deixar os poemas.
Drummond vai deixar o avião.
O Ciclano vai deixar as gargalhadas de amarguras.
Andrade vai deixar o que faz rima com Raimundo.
O Cidadão vai deixar o partido.
Anne vai deixar sua companhia.
O Coisinha vai deixar o jantar.
Victor vai deixar os desenhos virtuais.
E Eu vou deixar saudades.
17/07/2004

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19.12.06

Visões Que Tive Quando Pisquei Depois De Te Ver

Quando passaste do meu lado,
Peguei meu elefante alado
E cavalguei pelas estrelas
Mais frias do oceano.

Quando afogado no oceano vermelho,
Talvez morto, louco fiquei.
E no sonho da loucura,

Andava nas linhas das partituras,
Caía num copo de leite,
Pegava o barquinho de papel, voava até
A torre, beijava-te no vazio.
04/10/2001

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17.12.06

Epigrama n.º 1: Destino

Regi orquestras.
Fiz Óperas.
Fui cumprimentado e laureado.

Encontro-me hoje,
Em um frágil galho
De uma arvora velha
A beira do abismo.
25/04/2005

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